Quem estudou pronomes de tratamento na escola lembra da tabela: Vossa Excelência, Vossa Senhoria, Vossa Eminência, Vossa Majestade. Ela ajuda até o dia em que o convidado é um embaixador estrangeiro, a cena é um jantar no lago de Como e metade da mesa fala inglês. Este guia explica como se dirigir a um embaixador, a um duque inglês, a um cardeal e aos outros convidados que uma casa particular na Itália ou na Suíça costuma receber, falando e por escrito, com as diferenças entre o uso brasileiro, o italiano e o britânico. É o que usamos no dia a dia, com as fontes no fim. E existe uma regra que vem antes de todas: pergunte ao gabinete do convidado.

Antes de qualquer regra, pergunte ao gabinete

Todo convidado com cargo ou título tem alguém que cuida da agenda: um secretário particular, a chancelaria da embaixada, um chefe de gabinete, o secretário do bispo. Um e-mail resolve, e essa pessoa prefere mil vezes uma pergunta antes a uma correção depois. Os manuais dão a forma correta. O gabinete dá a forma que aquela pessoa usa de verdade, e as duas nem sempre coincidem. Uma ministra italiana pode querer o título no feminino, outra exige o masculino. As duas têm seus motivos.

Uns dez dias antes da visita, perguntamos por escrito:

  • como tratar a pessoa na conversa, no cumprimento e depois;
  • o que vai no envelope e o que vai no cartão de mesa;
  • se vem cônjuge ou acompanhante, e como tratá-lo;
  • como se pronuncia o nome. Pergunte mesmo quando tiver certeza: o sobrenome inglês Cholmondeley se diz “Tchâmli”, e ninguém acerta de primeira.

A resposta vai para o House Book, com a data e o nome de quem respondeu. Na visita seguinte ninguém precisa perguntar de novo, e ninguém precisa chutar.

Como se dirigir a um embaixador

Embaixadores são os convidados sobre quem mais nos perguntam, até porque vêm jantar com mais frequência do que duques. O ponto de partida é internacional: o embaixador representa um chefe de Estado e recebe o tratamento de Excelência. Na prática, “Excelência” se diz uma vez, no cumprimento, e depois a conversa passa para “Embaixador” ou para o sobrenome. O manual britânico Debrett’s diz isso com todas as letras: “Your Excellency” pelo menos uma vez, depois “Sir” ou “Ma’am”, ou o nome.

No Brasil, o Manual de Redação da Presidência da República resolve a parte escrita. O envelope leva “A Sua Excelência o Senhor” seguido do nome e do cargo, o vocativo é “Senhor Embaixador,” e no corpo do texto usa-se “Vossa Excelência”, abreviado V. Exa. Vale lembrar a diferença que derruba muita gente: “Vossa Excelência” é para falar com a pessoa, “Sua Excelência” é para falar dela. E o verbo fica na terceira pessoa: “Vossa Excelência deseja um café?”, nunca “desejais”.

Desde 2019, um decreto federal fixou “senhor” e “senhora” como único tratamento na comunicação com agentes públicos da administração federal, vetando Vossa Excelência, Vossa Senhoria e “doutor”. O próprio decreto, que segue sem nota de revogação no site do Planalto, deixa de fora a comunicação com autoridades estrangeiras e organismos internacionais. Com um embaixador, portanto, a Excelência continua valendo.

Alguns detalhes pegam até quem está acostumado.

  • O título vale no país em que ele serve. Um embaixador britânico só é “His Excellency” no país onde está acreditado, e não no Reino Unido. Num jantar em Milão ele é Excelência; em casa, em Londres, volta a ser o senhor Fulano.
  • Embaixadora ou Ambasciatore. Em português, a mulher que exerce o cargo é embaixadora, e embaixatriz é, tradicionalmente, a esposa do embaixador. A lista diplomática do Ministério das Relações Exteriores italiano faz o contrário do português: escreve “S.E. Sig.ra” e depois “Ambasciatore”, no masculino. O Debrett’s, em inglês, também recusa “ambassadress”.
  • O cônjuge não tem título. Marido ou esposa do embaixador é senhor ou senhora, sem Excelência. O Debrett’s lembra que ao marido de uma embaixadora não cabe tratamento algum.
  • O núncio usa dois chapéus. O representante do Papa é arcebispo e chefe de missão ao mesmo tempo. Na lista diplomática italiana ele aparece em primeiro lugar, antes de todos os embaixadores, como “S.E. Rev.ma Mons.”. “Excelência” serve para os dois papéis.

A Suíça é mais econômica. O guia de protocolo do Exército suíço escreve a um embaixador estrangeiro “Sehr geehrter Herr Botschafter”, algo como “Prezado Senhor Embaixador”, e simplesmente não usa “Exzellenz”. Os americanos dizem “Mr Ambassador” ou “Madam Ambassador”. Cada um está certo no próprio país. Para a equipe da casa, ensinamos “Excelência” para qualquer embaixador, porque ninguém nunca se ofendeu com isso.

OndeNo cumprimentoDepoisAbertura da cartaEnvelope
Brasil (Manual de Redação)Excelência, ou Senhor EmbaixadorEmbaixadorSenhor Embaixador,A Sua Excelência o Senhor [nome], Embaixador de [país]
ItáliaEccellenza, ou Signor AmbasciatoreAmbasciatoreEccellenza, / Gentile Ambasciatore,A Sua Eccellenza il Signor / la Signora [nome], Ambasciatore di [país]
Reino Unido (Debrett’s)Your ExcellencyAmbassador, Sir ou Ma’am, ou o nomeYour Excellency (formal); Dear Ambassador (social)His/Her Excellency The Ambassador of [país]
Suíça de língua alemãHerr Botschafter / Frau BotschafterinO mesmo, ou o nomeSehr geehrter Herr Botschafter / Sehr geehrte Frau BotschafterinHerr Botschafter / Frau Botschafterin, nome, embaixada

Realeza e nobreza britânicas

Com um convidado britânico a conversa costuma ser em inglês, então valem as formas inglesas. As da Casa Real são mais simples do que se imagina. Ao Rei, na primeira vez, diz-se “Your Majesty”, e depois “Sir”. À Rainha, “Your Majesty” e depois “Ma’am”, com o “a” curto, como em “jam”, sem esticar. Os demais membros da família real são “Your Royal Highness” no cumprimento e depois “Sir” ou “Ma’am”. Os homens fazem uma pequena inclinação de cabeça, as mulheres uma breve reverência, e há quem simplesmente aperte a mão. A própria Casa Real escreve que não existem códigos de comportamento obrigatórios. O convidado escolhe; a equipe, que não é convidada, usa as formas tradicionais. Em português, Vossa Majestade e Vossa Alteza Real continuam corretos.

Cartas assustam mais do que deveriam. Para uma carta formal ao Rei, a Casa Real sugere abrir com “Sir” e fechar com “I have the honour to be, Sir, Your Majesty’s humble and obedient servant”, e logo avisa que isso não é obrigatório. Para os outros membros da família, escreve-se aos gabinetes particulares, que são também os que organizam qualquer visita.

Com os nobres é que se erra, porque a forma falada e a escrita se separam. No envelope, o duque é “The Duke of” seguido do nome do ducado. Na conversa, o Debrett’s dá “Good morning, Duke”, e é assim que os seus pares o chamam. “Your Grace” é a forma formal, a que a equipe usa. Os guias americanos, como o de Robert Hickey, indicam “Your Grace” para todo mundo, e um britânico e um americano na mesma mesa parecem estar em jantares diferentes. Marqueses, condes, viscondes e barões são todos “Lord” mais o título na conversa, e as esposas “Lady”. “Earl” e “Baroness” ficam para envelopes e listas oficiais, com uma exceção: as baronesas vitalícias que preferem “Baroness”, preferência que o Debrett’s pede para respeitar mesmo achando tecnicamente incorreta. Cavaleiros e damas vão pelo primeiro nome: “Sir John”, “Dame Maggie”, nunca “Sir Smith”.

ConvidadoNo cumprimentoDepoisAbertura da cartaEnvelope
O ReiYour Majesty (Vossa Majestade)SirSirHis Majesty The King
A RainhaYour Majesty (Vossa Majestade)Ma’am (como “jam”)MadamHer Majesty The Queen
Príncipe, princesaYour Royal Highness (Vossa Alteza Real)Sir / Ma’amSir / MadamHis/Her Royal Highness The Prince/Princess [título]
Duque, duquesaDuke / Duchess; Your Grace (equipe)O mesmoDear Duke / Dear DuchessThe Duke / Duchess of [lugar]
Marquês, conde, visconde, barãoLord [título]Lord [título]Dear Lord [título]The Earl of [lugar]; The Lord [título] para um barão
Cavaleiro, damaSir John / Dame MaryO mesmoDear Sir John / Dear Dame MarySir John Smith / Dame Mary Smith

Autoridades italianas e suíças

O Estado italiano aboliu no papel boa parte dos seus títulos e manteve muitos deles na conversa. O Presidente da República é “Signor Presidente”, e “Presidente” também são, de viva voz, os presidentes das duas câmaras e o Presidente do Conselho de Ministros. Um ministro é “Signor Ministro”. Deputados são “Onorevole”, que, como lembrou o jornal Il Post, não está em lei nenhuma: é um costume herdado do Senado do Reino da Sardenha. Senadores são “Senatore” e “Senatrice”.

“Eccellenza” é o caso mais escorregadio. Um decreto real de 1927 criou o tratamento para os cargos mais altos do Estado; um decreto de 1945 mandou suspendê-lo, mas nunca foi convertido em lei. Na prática ainda se usa muito para os prefetti (o prefetto é o representante do governo na província, não o prefeito da cidade) e para os juízes da Corte de Cassação. Não usar também não é erro. Para o chefe da cidade, o sindaco, o tratamento é “Signor Sindaco”.

Depois vêm os títulos profissionais. Na Itália quem tem diploma universitário é “Dottore” ou “Dottoressa”, o advogado é “Avvocato” e o engenheiro “Ingegnere”, inclusive à mesa. O convidado apresentado na sexta como “l’avvocato” continua “Avvocato” para a equipe até domingo à noite. Quanto à nobreza, a Constituição italiana é seca: “I titoli nobiliari non sono riconosciuti”, os títulos de nobreza não são reconhecidos, e os predicados dos que existiam antes de 28 de outubro de 1922 valem como parte do nome. Socialmente, muitas famílias ainda os usam, e um convidado apresentado como “il conte” será “Signor Conte” para a equipe durante toda a estadia.

Quando várias autoridades vêm ao mesmo jantar, a Itália tem regras escritas de precedência, num decreto do Presidente do Conselho de 14 de abril de 2006, alterado em 2008. Uma casa particular não é obrigada a segui-lo. Mas, se vêm um prefetto e um presidente de região, ele resolve a mesa antes que alguém se ofenda.

A Suíça dispensa a Excelência para as próprias autoridades. Um conselheiro federal, membro do governo de sete, é “Herr Bundesrat” ou “Frau Bundesrätin” em alemão, “Monsieur le Conseiller fédéral” ou “Madame la Conseillère fédérale” em francês, “Signor Consigliere federale” em italiano. A presidência da Confederação gira todo ano entre os sete: quem é “Herr Bundespräsident” este ano volta a ser “Herr Bundesrat” em janeiro. Nos cantões, os membros do governo são “Herr Regierungsrat” na Suíça alemã, “Monsieur le Conseiller d’État” em Genebra ou Vaud e “Signor Consigliere di Stato” no Ticino. O novo Regulamento de Protocolo da Confederação, em vigor desde 15 de junho de 2026, trata de eventos oficiais e não de jantares particulares, mas diz que, quando o corpo diplomático convida um membro do Conselho Federal para um almoço ou jantar em sua honra, o convite passa pelo Protocolo. Uma casa particular não é embaixada, mas faz bem em seguir a mesma lógica e falar com o gabinete.

CargoNa conversaAbertura da carta
Presidente da República ItalianaSignor PresidenteSignor Presidente,
Ministro italianoSignor MinistroSignor Ministro,
Deputado / senador italianoOnorevole / Senatore, SenatriceOnorevole, / Gentile Senatore,
PrefettoEccellenza, ou Signor PrefettoSignor Prefetto,
Sindaco (prefeito, no sentido brasileiro)Signor SindacoSignor Sindaco,
Conselheiro federal suíçoHerr Bundesrat; Monsieur le Conseiller fédéral; Signor Consigliere federaleSehr geehrter Herr Bundesrat / Sehr geehrte Frau Bundesrätin
Membro de governo cantonalHerr Regierungsrat; Monsieur le Conseiller d’État; Signor Consigliere di StatoSehr geehrter Herr Regierungsrat

Como se dirigir a um cardeal, a um bispo, a um padre

A Igreja pôs ordem nos próprios títulos em 1969, com uma instrução da Secretaria de Estado sobre as vestes, os títulos e os brasões de cardeais, bispos e prelados menores. Cardeais recebem “Eminência” e bispos “Excelência”, com o acréscimo opcional de “Reverendíssima”. Na fala direta, a instrução indica “Senhor Cardeal” e, para o bispo, “Monsenhor”. Por cima dessa base, cada país guardou seus hábitos. No Reino Unido e na Irlanda ainda se ouve “My Lord” para um bispo e “Your Grace” para um arcebispo.

Aqui mora a confusão mais comum para quem vem do Brasil. Em português, “Dom” mais o primeiro nome é tratamento de bispo: Dom Paulo, Dom Pedro. Na Itália, “Don” mais o primeiro nome é o padre da paróquia. Don Paolo, na Itália, é um sacerdote; o bispo é “Eccellenza” ou “Monsignore”. Um religioso de ordem costuma ser “Padre” nas duas línguas.

ConvidadoEm portuguêsEm italianoEm inglêsPor escrito (pt)
O PapaVossa Santidade, Santo PadreSantità, Santo PadreYour Holiness, Holy FatherA Sua Santidade o Papa [nome]
CardealVossa Eminência, EminênciaEminenza, Signor CardinaleYour EminenceA Sua Eminência Reverendíssima o Senhor Cardeal [nome]
Arcebispo, bispoVossa Excelência Reverendíssima, Dom [nome]Eccellenza, MonsignoreYour ExcellencyA Sua Excelência Reverendíssima Dom [nome], Bispo de [diocese]
Núncio apostólicoVossa ExcelênciaEccellenzaYour ExcellencyA Sua Excelência Reverendíssima Dom [nome], Núncio Apostólico
MonsenhorMonsenhorMonsignoreMonsignorAo Reverendíssimo Monsenhor [nome]
PadrePadre [nome]Don [nome]; Padre (religiosos)FatherAo Reverendo Padre [nome]

Cartões de mesa, envelopes e apresentações

O papel perdoa menos do que a voz: um deslize na porta é esquecido antes da sopa, um envelope errado fica uma semana em cima da mesa de alguém. O Debrett’s faz uma distinção útil. No convite, nomes e títulos vão por extenso, mas sem as siglas das condecorações; no envelope, o convidado recebe o título profissional completo e as condecorações. No envelope de um convite para evento oficial, o convidado é indicado pelo cargo, e prefixos como “His Grace” e “His Excellency” ficam de fora, com exceção de “The Rt Hon” para membros do Privy Council.

Os cartões de mesa de uma casa particular são mais curtos. Escrevemos a forma que você usaria para falar do convidado com uma terceira pessoa: “O Embaixador da Noruega”, “Cardeal Rossi”, “Lord Aldford”, “Signora Bianchi”. O cônjuge tem o próprio cartão, com o próprio nome. “Excelência” num cartão de mesa, nunca: parece um cardápio anunciando quanto custou o vinho.

Nas apresentações vale uma regra antiga: apresenta-se a pessoa de menor precedência à de maior, e o título se diz uma vez só. “Excelência, permita-me apresentar a senhora Bianchi, que restaurou os afrescos da biblioteca.” A segunda metade da frase vale tanto quanto a primeira, porque dá a dois desconhecidos um assunto.

Na ficha do convidado que entregamos à equipe vão a forma falada, a pronúncia e o nome do cônjuge. A equipe mantém o tratamento formal durante toda a visita, mesmo depois que o convidado diz “pode me chamar de Carlos”. O convidado está sendo gentil; a equipe está trabalhando.

Quando os manuais discordam

Acontece mais do que o tom deles dá a entender. O Debrett’s faz os pares chamarem o duque de “Duke”, o guia americano de Hickey faz todo mundo dizer “Your Grace”. A instrução de 1969 dá “Excelência” aos bispos do mundo inteiro, enquanto ingleses e irlandeses mantêm “My Lord”. A Itália mandou suspender a Eccellenza em 1945 e segue usando-a para os prefetti, e o feminino dos cargos depende de quem os ocupa. Quando os manuais não concordam, seguimos o gabinete do convidado. Se o gabinete não tem preferência, usamos a forma mais formal no papel e a mais calorosa na conversa.

As formas que mais usamos estão no nosso cartão de uma página com as formas de tratamento, para baixar de graça e guardar na gaveta do aparador da entrada. O sistema completo, com precedência, convites, lugares à mesa e a ficha do convidado para a equipe, está em The Protocol Book. Se uma visita se aproxima e você quer a equipe preparada por quem já fez isso, faz parte da nossa consultoria residencial. O tratamento é só o primeiro minuto de uma visita: o resto está em como receber um convidado VIP em casa, e, quando todos se sentam, entram as regras de etiqueta à mesa na Itália.

Perguntas

Como se dirigir a um embaixador?

Diga "Excelência" uma vez, no cumprimento, e depois passe para "Embaixador" ou o sobrenome; em inglês, o Debrett's recomenda "Your Excellency" pelo menos uma vez e depois "Sir" ou "Ma'am". Por escrito, no Brasil, o envelope leva "A Sua Excelência o Senhor" e o vocativo é "Senhor Embaixador".

Como se dirigir a um duque inglês?

Socialmente, "Duke" ou "Duchess"; "Your Grace" é a forma formal, a que a equipe usa. No envelope ele é "The Duke of [lugar]". Os guias americanos costumam usar "Your Grace" para todos.

O que se escreve no cartão de mesa?

A forma que você usaria ao falar do convidado com uma terceira pessoa: "O Embaixador da Noruega", "Cardeal Rossi", "Lord Aldford", "Signora Bianchi". O cônjuge tem o próprio cartão, com o próprio nome, e "Excelência" num cartão de mesa, nunca.

Escrevemos o Journal a partir do nosso próprio trabalho em casas privadas na Itália e na Suíça. Cada casa tem as suas regras: aproveite o que serve à sua e pergunte-nos o resto.

Fontes