A pergunta chega todo outono, com quem acabou de entrar na equipe, lá pelas quatro da tarde do primeiro grande jantar. A pessoa está com uma colher de sobremesa na mão e aquela cara de quem não faz ideia: e essa aqui, vai onde? Não é para menos. Quase todo mundo aprendeu como montar uma mesa formal com a mãe ou o pai, num restaurante ou num desenho no celular, e essas três escolas nunca chegaram a um acordo. Então aqui vai o jeito como fazemos nas casas de que cuidamos, contado como acontece de verdade: ao longo de uma tarde, com uma ripa de madeira para medir e muitas voltas em torno da mesa.
A ideia por trás de tudo cabe numa linha. Uma mesa posta formal existe para que ninguém sentado nela precise pensar no assunto. Você senta, olha os talheres e já sabe que são quatro pratos e que o peixe vem antes da carne. Se alguma coisa naquela toalha faz um convidado hesitar, ela está no lugar errado.
Em resumo
- Os convidados comem de fora para dentro, então os talheres seguem a ordem do cardápio: garfos à esquerda, facas à direita com o fio virado para o prato.
- Conte pelo menos 60 cm por convidado, perto de 70 cm com cadeiras de braço, e posicione as cadeiras antes dos pratos.
- A taça de água fica acima da faca de mesa; as de vinho seguem à direita dela na ordem de uso, a primeira mais por fora.
- Nunca mais de três peças do mesmo tipo na mesa: o talher extra chega com o seu prato.
- A colher e o garfo de sobremesa ficam atravessados no alto do lugar, ou chegam no prato da sobremesa.
Uma tarde para montar uma mesa para doze
Sábado, jantar para doze, convidados chamados à mesa às oito e meia. A mesa se monta à tarde, nunca às sete, porque às sete sempre tem alguém procurando as velas.
15h: primeiro as cadeiras
Antes de qualquer prato, as cadeiras. São elas que decidem os lugares, e não o contrário. Contamos pelo menos sessenta centímetros de espaço por convidado, medidos do meio de um lugar ao meio do seguinte, e perto de setenta quando as cadeiras têm braços. É também a hora em que alguém pergunta se dá para pôr treze. Dar, dá, no sentido de que é possível fazer treze pessoas sentarem ali, e ainda tem a velha história de que treze à mesa dá azar. Melhor tirar uma extensão e acomodar dez com conforto, ou pôr mais uma e sentar quatorze com espaço para levantar a taça.
15h20: o moletom e a toalha
Primeiro o moletom, o forro de feltro que nenhum convidado vai ver e sem o qual nenhum mordomo trabalha. Sem ele as taças tilintam na madeira, os pratos quentes marcam o tampo e a toalha nunca fica bem esticada. Depois a toalha, passada em cima da própria mesa se for preciso, com a mesma queda nos quatro lados. A nossa fica em uns trinta centímetros. Confira os cantos. É nos cantos que a coisa desanda, e é justamente num canto que o anfitrião costuma ficar de pé para fazer o brinde.
15h40: os pratos, e a ripa
Em seguida vêm os sousplats, um no centro de cada lugar, a um dedo da borda da mesa. Nós os espaçamos com uma ripa cortada na medida: um pedaço de madeira qualquer, com duas marcas de lápis. Gente que monta mesa há vinte anos continua usando, porque numa mesa comprida o olho engana e a ripa não. O sousplat, que alguns manuais chamam de prato de serviço, fica na mesa durante as primeiras etapas do jantar, com o prato fundo ou o de entrada por cima, e sai quando chega o prato principal. Num jantar formal menor dá para passar sem ele. Uma boa toalha e um bom prato raso seguram a mesa sozinhos.
16h: os talheres, de fora para dentro
Na posição dos talheres, a regra que faz quase todo o trabalho é uma só: come-se de fora para dentro. Um par de talheres para cada etapa do jantar, os da primeira mais afastados do prato, e assim os talheres se leem como o cardápio.
Garfos à esquerda. Facas à direita, com o fio sempre virado para o prato, porque uma lâmina apontada para o vizinho parece descuido até para quem não saberia explicar a regra. A colher de sopa fica à direita das facas. Se o peixe vem antes da carne, o garfo de peixe vai por fora do garfo de mesa, e a faca de peixe por fora da faca de mesa. Só um garfo mora do lado direito: o de ostra, por fora das colheres, porque as ostras vêm primeiro e se comem sem mais nada.
Nunca mais de três talheres do mesmo tipo na mesa. Quando o cardápio é mais longo, os talheres extras chegam junto com o seu prato. Ainda há casas que põem tudo de uma vez, quatorze peças de prata por convidado abertas em leque como a bandeja de um cirurgião, e os convidados passam a entrada inteira fazendo conta.
Uma pessoa coloca um único tipo de talher na volta inteira: todos os garfos de mesa, depois todos os de peixe, depois as facas. De luvas de algodão, para a prata continuar tão limpa quanto saiu da copa. As pontas dos cabos param numa linha reta, uns dois centímetros antes da borda. Vá até o fundo da sala e olhe: é essa linha que faz uma mesa parecer certa, até para convidados que nunca vão saber dizer por quê. Se a prata não estava limpa, isso é serviço para a véspera, e o nosso método para limpar prata explica como fazemos sem gastar as peças.
16h40: as taças
A taça de água fica logo acima da ponta da faca de mesa. As de vinho vão à direita dela, na ordem em que serão usadas, de modo que a taça do primeiro vinho é a mais de fora; uma flûte para o brinde ou para a entrada fica na ponta direita. A ordem das taças segue o cardápio, exatamente como a dos talheres. Cinco é o máximo que já pusemos numa mesa. Três dão conta de quase todo jantar. Cada taça sai da mesa junto com o seu prato, senão, lá pelo prato principal, cada lugar parece uma lojinha de cristais. Dê brilho no vapor com um pano que não solta fiapos e carregue as taças pela haste, nunca pelo bojo.
17h: pratos de pão, talheres de sobremesa, guardanapos
O prato de pão fica acima dos garfos, à esquerda, com a faca de manteiga deitada por cima. Muitas casas italianas não servem manteiga no jantar, e aí também não há faca; explicamos o motivo no nosso guia de etiqueta à mesa na Itália. Convidados de Londres ou de Nova York vão procurar a faquinha, e por isso o mordomo precisa saber qual é o costume da casa antes de o primeiro carro passar pelo portão.
A colher e o garfo de sobremesa ficam atravessados no alto do lugar: o garfo mais perto do prato, com o cabo para a esquerda, e a colher acima dele, com o cabo para a direita. Assim cada mão encontra o seu talher sem que ninguém precise raciocinar. Trazer os talheres de sobremesa no prato da sobremesa, logo antes de servi-la, é igualmente correto. O nosso costume é deixá-los postos até doze convidados e trazê-los depois nas mesas maiores, onde cada centímetro de toalha já tem dono.
O guardanapo fica sobre o sousplat ou à esquerda dos garfos. Os manuais italianos preferem a esquerda; nós usamos o sousplat quando um menu vai ficar apoiado em cima. Dobre de um jeito simples. Um guardanapo dobrado em forma de cisne passou tempo demais na mão de alguém, e a mesa inteira sabe disso.
17h20: marcadores de lugar
Os marcadores de lugar ficam acima dos talheres de sobremesa, escritos à mão e com letra grande o bastante para ler de pé. Ninguém pega na caneta antes de conferir os títulos (o nosso guia de pronomes de tratamento cuida de embaixadores, clero e autoridades italianas). Quem senta onde já é outro assunto, e delicado quando há um convidado oficial, então dê uma olhada em como receber um convidado VIP em casa antes de o mapa de mesa ir para a gráfica.
18h30: os últimos detalhes
O centro da mesa fica baixo. Ponha um arranjo alto no meio e você transformou um jantar para doze em dois jantares para seis que não se enxergam. Nada de velas perfumadas, nada de lírios: o chef não passou a tarde inteira naquele molho para a sala cheirar a gardênia. As velas são novas; à tarde aparamos o pavio, acendemos uma vez para testar e apagamos de novo até os convidados passarem para a mesa.
Depois vem a última olhada, aquela que quase todo mundo pula. Sente em três cadeiras (as duas cabeceiras e depois uma no meio) e olhe a mesa como um convidado vai olhar. O que incomodar você dali vai incomodar o convidado também. Em geral é uma taça alguns centímetros fora da linha, ou um cartão virado para o lado errado. De vez em quando é a descoberta de que a mesa foi posta para onze.
Como montar uma mesa formal: as regras numa página só
| Peça | Onde fica | Bom saber |
|---|---|---|
| Sousplat | No centro do lugar, a um dedo da borda | Sai quando chega o prato principal |
| Garfos | À esquerda do prato, os da primeira etapa por fora | A exceção é o garfo de ostra, na ponta direita |
| Facas | À direita do prato, com o fio virado para ele | Nunca mais de três na mesa |
| Colher de sopa | À direita das facas | Só se houver sopa |
| Taças | Acima das facas: a água, e os vinhos à direita | A taça do primeiro vinho é a mais à direita |
| Prato de pão | Acima dos garfos | Com a faca de manteiga por cima, se a casa servir manteiga |
| Colher e garfo de sobremesa | Acima do prato | Ou trazidos no prato da sobremesa |
| Guardanapo | Sobre o sousplat ou à esquerda dos garfos | Dobrado de forma simples |
| Marcador de lugar | Acima dos talheres de sobremesa | Escrito à mão, com os títulos conferidos |
Da Academy
Montar a mesa e servir um jantar formal, de quatro a vinte convidados, com os lugares desenhados em escala.
Ver o guia: A mesa formalOnde as casas italianas fazem diferente
O esqueleto é o mesmo em toda a Europa. Garfos à esquerda, facas à direita, fio para dentro, água acima da faca. O que muda é o detalhe, e o detalhe costuma surpreender muito mais os convidados do que a equipe.
Na mesa posta italiana o pão está ali para acompanhar a comida, não para abrir a refeição, e muitas famílias nunca põem manteiga na mesa do jantar: sem manteiga, sem faca de manteiga. Muitas vezes há também menos taças. Água, um branco, um tinto, e cada taça escolhida pelo vinho que vai receber, não para encher o lugar. Algumas casas ainda fecham o jantar com frutas inteiras, que os convidados descascam com garfo e faca de fruta; esses talheres chegam com a fruteira e nunca são postos no começo. E o café não tem lugar na mesa posta. O espresso vem depois do jantar, muitas vezes em outra sala. Uma xícara de espresso na mesa desde o começo, num jantar em Milão, correria a mesa inteira como fofoca.
Os erros que mais vemos
Quase todos nascem da pressa. Tudo posto de uma vez, para todos os pratos. Facas com o fio para fora. Taças amontoadas de qualquer jeito, lugares espremidos para caber mais um convidado, um arranjo de centro mais alto do que quem está sentado atrás dele.
E tem aquele que só aparece em casas com muita prataria: dois faqueiros diferentes no mesmo lugar. Padrões misturados ao redor da mesa podem ficar lindos, como se alguém tivesse escolhido assim. Dentro de um único lugar, parece que a copa ficou sem talher.
Para a noite inteira, e não só para a mesa, dos convites três semanas antes aos bilhetes de agradecimento na manhã seguinte, leia como organizar um jantar em casa.
Desenhamos tudo isso em escala, prato a prato, para mesas de quatro a vinte pessoas, no guia A mesa formal, junto com as taças, a ordem do serviço e os tempos da cozinha e da sala de jantar. Se você prefere que cuidemos do jantar, mesa incluída, isso faz parte da nossa governança residencial. Em qualquer caso, conte-nos sobre a casa.
Perguntas
Onde fica o prato de pão numa mesa formal?
Acima dos garfos, à esquerda, com a faca de manteiga atravessada por cima. Muitas casas italianas não servem manteiga no jantar, e então a faca de manteiga também fica de fora.
Onde ficam a colher e o garfo de sobremesa?
Atravessados no alto do lugar, acima do prato: o garfo mais perto do prato, com o cabo para a esquerda, e a colher acima dele, com o cabo para a direita. Trazê-los no prato da sobremesa, logo antes de servi-la, é igualmente correto.
Quantas taças pôr num jantar formal?
Três bastam para a maioria dos jantares: água e dois vinhos. Cinco é o máximo na prática. A taça de água fica acima da faca e as de vinho à direita dela, na ordem em que serão usadas.
O guardanapo vai no prato ou à esquerda?
Os dois estão certos. Os manuais italianos preferem a esquerda dos garfos; o sousplat funciona bem quando um menu vai ficar apoiado sobre o guardanapo.
Escrevemos o Journal a partir do nosso próprio trabalho em casas privadas na Itália e na Suíça. Cada casa tem as suas regras: aproveite o que serve à sua e pergunte-nos o resto.
Liorènne House
Cuidamos da casa, e da mesa com ela: uma só pessoa responsável, rotinas escritas no House Book, jantares planejados com a sua equipe.
Fontes
Uma visita
Dois dias na casa
Uma visita, um diagnóstico honesto e um House Book por escrito, para que a casa funcione bem com ou sem nós.
Perguntar sobre uma visita





