Explicar o trabalho de house manager num jantar é complicado. “Eu cuido de uma casa” soa ou pomposo ou levemente suspeito, e a versão honesta, a de que você passou a tarde contando guardanapos e negociando com um aquecedor, também não ajuda muito.
As famílias fazem a mesma pergunta de um jeito mais útil: o que faz um house manager, e será que precisamos de um? Uma lista de atribuições teria várias páginas e mesmo assim não diria o essencial. A resposta mais clara que conhecemos é um dia. Aqui vai um dia típico, montado a partir dos verões nas casas de que cuidamos, com os detalhes embaralhados para que nenhuma delas possa ser reconhecida. Julho, família na casa, convidados para o jantar.
Um dia de julho, hora a hora
06h30 A primeira volta
O dia começa com uma volta pela casa, sozinho, antes de todo mundo acordar. É a única hora em que você vê a casa do jeito que a família vai vê-la. Primeiro a cozinha: a temperatura das geladeiras, as entregas da madrugada, se os copos da noite anterior saíram da lava-louças. Depois o registro do alarme, o bilhete de quem fechou a casa, uma olhada na piscina. Em julho, as venezianas do lado sul ficam fechadas até o fim da tarde. A família gosta da luz. Os móveis e os quadros não gostam, e alguém precisa tomar o partido dos móveis.
As coisas pequenas se resolvem ali mesmo, sem barulho: uma lâmpada queimada, uma toalha esquecida numa cadeira do terraço, hortênsias que desistiram durante a noite. O que for maior vai para o caderno.
07h15 Dez minutos na cozinha
Uma reunião rápida com quem está de plantão: governanta, chef, mordomo, motorista, às vezes o jardineiro-chefe. Quem está na casa hoje, quem chega, quem vai embora, o que tem no almoço, qual carro sai e a que horas. Dez minutos, em pé. Se passar disso, é porque alguma coisa não foi decidida ontem.
08h00 O café da manhã, mais observado do que servido
Quem serve é o mordomo ou a governanta. O house manager observa do canto da sala. O café está do jeito que eles tomam? O jornal chegou? Alguém trocou o cereal do caçula pelo que ele come de verdade? Nada disso mora na memória de ninguém. Mora no House Book, porque memória também tira férias.
09h00 A hora do escritório, que nunca dura uma hora
E-mails, notas fiscais, as contas do mês. O orçamento do florista aprovado, a equipe de limpeza de vidros cobrada, o afinador do piano confirmado para quinta, a lavanderia paga, uma pergunta do family office sobre os gastos do mês passado. A equipe pergunta sobre escalas, folgas, um uniforme que não serve. Ninguém fotografa essa parte do trabalho, e ela é a maior parte do trabalho.
10h30 Entregas e áreas externas
Chegam o peixe, as flores e o vinho, e tudo é conferido com o pedido. Em Martha’s Vineyard aprendemos a tratar a tabela da balsa como documento da casa: quando os barcos param por causa do vento, metade das compras para junto. Depois, uma volta pelos jardins com o estate manager, ou com o jardineiro-chefe quando não há estate manager. Os assuntos da semana: a poda das cercas vivas antes de os convidados chegarem, e não durante; o timer da irrigação, que tem opinião própria; a lavanda, que o jardineiro quer cortar agora e a família quer olhar até agosto.
12h30 O plano muda
No almoço, o jantar para doze vira jantar para dezesseis. Ninguém pode ver uma sobrancelha se mexer. Da porta da cozinha para dentro, isso quer dizer mais uma extensão na mesa, mais quatro lugares de prataria contados e polidos, o cardápio esticado sem perder a forma, dois quartos de hóspedes arrumados para o caso de alguém dormir e uma mensagem ao motorista: os últimos convidados agora saem à meia-noite, não às onze.
14h30 As horas quietas
Almoço da equipe e depois descanso, em revezamento. Na Itália, o contrato nacional garante a quem mora na casa e trabalha da manhã até a noite uma pausa não remunerada de pelo menos duas horas, normalmente à tarde, e um bom house manager defende essa pausa até num dia como este. Gente cansada quebra taça. Enquanto isso, os quartos de hóspedes passam pela inspeção com a governanta: camas, flores, água na cabeceira, abajures funcionando e os travesseiros especiais para o convidado que pediu no ano passado. Convidado nunca esquece quem esqueceu o travesseiro dele.
16h00 A casa propriamente dita
Vem um técnico ver a bomba da piscina, que começou a fazer barulho. Alguém precisa recebê-lo, levá-lo até a casa de máquinas, entender o que ele diz e decidir se dá para esperar até setembro. Depois o arquiteto liga por causa da obra de inverno na garagem dos barcos. Nada disso tem glamour. Tudo isso decide se a casa ainda vai funcionar daqui a cinco anos.
18h00 Chegadas
Dois hóspedes pousam às seis. O motorista avisa do aeroporto. A governanta desfaz as malas deles, se é assim que essa família faz; está no House Book, e isso varia mais do que se imagina. O house manager está na porta, ou garantiu que a pessoa certa esteja.
19h30 Antes dos convidados
Última volta. Luzes do terraço acesas, velas acesas, citronela escondida mas funcionando, música num volume que os vizinhos aguentem. Uma última conversa com o chef sobre os tempos de cada prato e sobre o convidado que não come frutos do mar. O mordomo comanda a mesa; o house manager garante que a mesa tenha tudo de que precisa para ser comandada.
20h30 O jantar
Durante o jantar, o house manager fica quase invisível e um pouco ocupado. Acompanha o ritmo da cozinha, manda um segundo par de mãos tirar a mesa quando o primeiro se atrasa, avisa o motorista, confere se o turno da noite comeu. Se a família reparar no house manager durante o jantar, alguma coisa deu errado.
23h30 A última volta
Portas, janelas, alarme. Um abajur aceso no hall para um convidado que vem de Milão de carro, tarde. Anotações para a reunião de amanhã: a taça quebrada para repor, a bomba, um café da manhã mais cedo para quem pega voo.
Ninguém deveria trabalhar tudo isso sozinho, e na Itália o contrato não deixaria: dez horas por dia para quem mora na casa, com onze horas seguidas de descanso. Um dia assim se divide. Nós trabalhamos em casal, o que ajuda: um faz a primeira volta, o outro a última.
House manager, mordomo, estate manager, governanta: quem faz o quê
Os títulos viajam mal. Numa casa de campo inglesa, a governanta já chefiou meia equipe; num apartamento em Londres, hoje, ela pode vir três manhãs por semana. Em português, “governanta” costuma querer dizer quem cuida dos cômodos, da roupa e às vezes da cozinha; na Itália, a governante pode ser a governanta-chefe ou quem comanda a casa inteira. É mais seguro descrever o trabalho do que confiar no título.
| Função | Cuida de | Responde por |
|---|---|---|
| House manager | A casa como um todo: equipe e escalas, fornecedores, orçamento, padrões, a agenda da família em casa | Tudo da porta para dentro |
| Mordomo | O serviço: mesa, vinhos, convidados, prataria, roupas e sapatos da família | Como a família e os convidados são atendidos quando estão em casa |
| Estate manager | Jardins, edificações, instalações, segurança e obras, muitas vezes em várias propriedades | Tudo da porta para fora e por trás das paredes |
| Governanta | Cômodos, lavanderia, enxoval e tecidos, armários, rotinas de limpeza | O estado de cada cômodo, todos os dias |
A diferença entre mordomo e house manager é, sobretudo, de alcance. O mordomo cuida das pessoas; o house manager cuida do sistema que cuida das pessoas. Em casas menores, as duas funções viram uma só, e uma governanta-chefe experiente pode tocar sozinha uma casa pequena. Juntar funções não tem problema. Juntar sem dizer é como uma casa acaba com três pessoas, cada uma achando que é outra que cuida do aquecedor.
Em Londres e nos Estados Unidos, o house manager às vezes se chama household manager. Mesmo trabalho, cartão de visita mais comprido. O salário de cada função varia mais do que as famílias imaginam; os valores atuais estão em quanto ganha a equipe de uma casa na Itália e na Suíça.
O que as famílias erram ao contratar um house manager
- Contratar um hotel. O gerente-geral de um hotel tem departamentos, um gerente da noite e uma equipe de manutenção. O house manager, às onze da noite, tem uma lanterna. Experiência em hotel ajuda, mas é outro trabalho.
- Uma pessoa, quatro empregos. Já lemos vagas de house manager que pediam também cozinheiro, motorista, babá e contador. Isso não é descrição de vaga. É a lista da equipe.
- Responsabilidade sem autoridade. O house manager que não pode orientar a equipe nem aprovar uma nota vira um mensageiro caro. Decida o que ele pode assinar, até que valor, e avise a equipe.
- Chefes demais. Pai, mãe, o filho mais velho, o family office e a secretária, todos dando ordens à mesma pessoa. Cada um pode ter a sua opinião, mas a linha de comando precisa ser uma só.
- Contratar em maio para junho. Bons house managers raramente estão livres de uma semana para a outra, e os que estão costumam ter um motivo.
- Nenhum dia de teste, ou um dia de teste que ninguém acompanhou. Um dia na casa, com a família presente em parte dele, diz mais do que três entrevistas.
- Nenhuma passagem de bastão. Sem ela, o novato aprende a casa com quem está indo embora, que nem sempre está de bom humor.
Sinais de que você precisa de um
- Os seus fins de semana pertencem à casa: o encanador, as notas, as férias do jardineiro.
- A equipe entra e sai, e cada um ouviu uma coisa diferente de um membro diferente da família.
- A mesma coisa quebra todo ano, a mesma infiltração no mesmo canto, porque ninguém é dono do acompanhamento.
- Ninguém sabe quando a prataria foi contada pela última vez, nem quem tem a chave reserva da adega.
- Os convidados chegam e o quarto está quase pronto.
- Você tem uma segunda casa, e é sempre a segunda casa que decepciona.
- Trabalha mais gente na casa do que a família consegue orientar no café da manhã.
Como passar as instruções a um house manager
Um bom house manager vai aprender a sua casa de qualquer jeito. Um bom briefing faz com que ele aprenda em semanas, e não em temporadas.
- Quem decide. Diga a quem ele responde, uma pessoa só, e o que pode decidir sozinho: contratar, gastar, qual técnico chamar de madrugada.
- O ano. Quando a família está na casa, quando vêm convidados, que datas são fixas, quando a casa abre e fecha. Fechar bem uma casa de veraneio é um trabalho à parte.
- Os padrões. Como se arruma a cama e se põe a mesa, o café, a temperatura dos cômodos, as flores, o que quer dizer “pronto” numa chegada. Se você não escrever o seu padrão, vai receber o de outra pessoa, em geral o do último patrão dele.
- O dinheiro. O orçamento, as contas, como se aprovam as notas e quem paga o quê.
- A privacidade. O que se pode dizer a quem, fotos, redes sociais, nomes de convidados. O acordo de confidencialidade se assina antes do primeiro dia, não depois do primeiro deslize.
- As pessoas. Quem está na equipe, no que cada um é bom, o que já deu errado. Seja honesto; ele vai descobrir até quinta-feira.
- Tempo. Peça algumas semanas de observação antes de qualquer mudança. O house manager que reorganiza o armário de roupa de cama na primeira semana ou é muito bom, ou está prestes a ficar muito impopular.
Tudo isso cabe num documento só. Nós o chamamos de House Book. Toda casa de que cuidamos tem um, e transformamos a estrutura dele no kit House Book, para famílias e house managers que querem escrever o seu. Se preferir escrever conosco, é para isso que existe a nossa consultoria residencial: dois dias na casa, um diagnóstico honesto e depois o livro.
Quando a casa precisa de alguém novo, a nossa seleção de equipe começa por esse briefing, antes de abrir qualquer currículo. E se você simplesmente quer alguém que toque a casa, isso é governança residencial, conduzida pessoalmente por um de nós. Em qualquer caso, conte-nos como é a casa.
